Resumo
Objetivo: analisar a confiabilidade e a eficiência de dois modelos de exoesqueleto aplicados em atividades reais de uma linha de produção industrial.
Método: foram avaliadas 9 atividades, comparando a execução das tarefas com e sem os equipamentos. A análise considerou eletromiografia de superfície, frequência cardíaca, dinamometria e questionários de usabilidade.
frequência cardíaca média com o exoesqueleto de ombro.
referência observada sem o equipamento na mesma condição.
aumento de força lombar com o exoesqueleto elástico.
critério de significância estatística usado no estudo.
Conclusão: os exoesqueletos podem auxiliar na redução de esforço muscular em atividades específicas, desde que sua aplicação seja validada por estudo ergonômico detalhado, treinamento e protocolo de uso.
Introdução
Cada vez mais, as indústrias buscam alternativas capazes de minimizar os efeitos de trabalhos repetitivos e esforços exagerados. Nesse cenário, soluções robóticas e dispositivos vestíveis ganham relevância como tecnologias de apoio à operação.
O exoesqueleto é um dispositivo aplicado à parte externa do corpo humano. Em geral, sua função é apoiar movimentos, ampliar capacidades funcionais ou melhorar a condição biomecânica durante uma tarefa.
Antes da aplicação, é indispensável estudar o posto de trabalho, as condições ambientais, a biomecânica, a cinesiologia e as dimensões corporais envolvidas. A tecnologia só deve entrar depois de compreendida a relação entre atividade, trabalhador e risco.
Finalidades dos exoesqueletos
Além do uso industrial, os exoesqueletos podem cumprir diferentes funções de apoio ao movimento humano.
- Apoiar o movimento quando a pessoa não possui força suficiente para se movimentar, como em situações de limitação física ou deficiência.
- Prevenir lesões em trabalhos repetitivos ou em tarefas que exigem esforço físico elevado.
- Impedir movimentos indesejados associados a condições neuromotoras.
- Apoiar processos de reabilitação de pessoas com deficiência física.
- Criar ambientes virtuais para teleoperação ou interações específicas.
- Viabilizar estudos e investigações biomecânicas das partes do corpo humano.
Material e métodos
O estudo ergonômico foi realizado em abril de 2019, em uma empresa de manufatura. Primeiro, houve visita técnica para levantamento das operações, análise dos projetos ergonômicos existentes e seleção das atividades que seriam estudadas.
Foram escolhidas 6 atividades para avaliação do exoesqueleto robótico de ombro e 3 atividades para avaliação do exoesqueleto elástico lombar. Todas foram observadas com os mesmos trabalhadores, com e sem o equipamento.
As atividades avaliadas incluíram aplicação de feltros anti-ruído, revisão de banco, extração de peças, limpeza manual, retirada de velcro, aplicação de produto antirruído e sacagem de peças.
| Classificação do trabalho | Média da frequência cardíaca durante a atividade |
|---|---|
| Penoso | >110 bpm |
| Moderado | 100 a 110 bpm |
| Leve | < 100 bpm |
Equipamentos avaliados
Mate 1.0 Shoulder: exoesqueleto para ombro, com data de fabricação em março de 2018. O equipamento permite flexão de braço de 30 a 120 graus e possui cinco tamanhos, com ajustes na coluna e sete níveis de torque.
Morita Rakunie: exoesqueleto elástico para coluna lombar, com componentes em nylon, poliuretano, poliéster e polipropileno. Os elásticos ficam na parte posterior da coxa e do tronco, enquanto a estrutura rígida apoia a região inferior dos joelhos e o quadril.
Medições e hipóteses
A frequência cardíaca foi medida com frequencímetro Garmin Forerunner 235 durante uma hora de atividade com e sem o equipamento. A classificação de risco cardiovascular foi baseada na norma espanhola UNE-EN 28996.
A eficiência neuromuscular foi avaliada por eletromiografia de superfície. Para força muscular, utilizou-se dinamômetro lombar, com três medidas de três segundos e intervalo de um minuto entre elas.
Hipóteses estatísticas
- Hipótese nula: o exoesqueleto não aumenta a força muscular.
- Hipótese alternativa: o exoesqueleto aumenta a força lombar.
- Critério de análise: teste t pareado bicaudal, com p<0,05 e 95% de chance de reprodutibilidade dos resultados.
Critérios de usabilidade
- Usabilidade para colocar e retirar os equipamentos.
- Usabilidade durante a execução do trabalho.
Resultados
O exoesqueleto de ombro Mate 1.0 apresentou eficiência estatística em 2 das 6 atividades avaliadas. Já o exoesqueleto lombar Morita Rakunie apresentou eficiência estatística em 1 das 3 atividades analisadas.
| Análise do exoesqueleto Mate 1.0 Shoulder | |
|---|---|
| Atividade analisada | Resultado |
| Aplicação dos feltros anti-ruído na estrutura do assento | Apresentou eficiência - p<0,05* |
| Revisão do banco | Não apresentou eficiência - p>0,05** |
| Extração de peças (espumas) | Apresentou eficiência - p<0,05* |
| Limpeza manual | Não apresentou eficiência - p>0,05** |
| Retirada de velcro das espumas | Não apresentou eficiência - p>0,05** |
| Aplicação de produto antirruído | Não apresentou eficiência - p>0,05** |
*Com significância estatística. **Sem significância estatística.
| Análise do exoesqueleto elástico Morita Rakunie | |
|---|---|
| Atividade analisada | Resultado |
| Extração de peças (espumas) | Apresentou eficiência - p<0,05* |
| Limpeza manual | Não apresentou eficiência - p>0,05** |
| Sacagem de peças | Não apresentou eficiência - p>0,05** |
*Com significância estatística. **Sem significância estatística.
atividades eficientes com o exoesqueleto de ombro.
atividade eficiente com o exoesqueleto lombar.
força adicional observada no equipamento lombar.
Discussão
O estudo ocorreu em situação real de trabalho, durante a operação normal, o que permitiu observar tanto a eficiência biomecânica quanto os limites de adaptação dos equipamentos.
Membro superior
O exoesqueleto de ombro teve melhor comportamento em atividades estáticas, nas quais o segmento do braço permanece elevado ou sustentado. Nessas situações, o apoio externo reduziu o peso percebido e facilitou a manutenção da postura.
Em atividades dinâmicas com movimentos descendentes, o equipamento pode gerar resistência ao movimento e aumentar o esforço. Quando a tarefa exige movimentos rápidos ou de grande amplitude, podem ocorrer pequenos travamentos, o que representa risco para espasmos protetores.
Tronco e biomecânica
O exoesqueleto lombar favoreceu a sustentação da postura neutra e o retorno do tronco após flexão. Essa condição mostrou-se útil em tarefas com peso e postura estática.
Por outro lado, em atividades com flexão exagerada ou movimento dinâmico do tronco, a haste protetora pode gerar resistência, atrito e desconforto. Por isso, nem toda tarefa com exigência física é automaticamente indicada para o uso do equipamento.
Esforço e organização
Mesmo com o peso adicional do dispositivo, houve redução de esforço muscular em tarefas selecionadas. A frequência cardíaca média com o exoesqueleto de ombro foi de 91 bpm, enquanto a comparação sem o equipamento atingiu 110 bpm.
No aspecto organizacional, o uso requer tempo de colocação e retirada, cuidado com espaço físico e planejamento de rotatividade. Em algumas situações, o trabalhador passa a ocupar mais espaço e pode alterar seu equilíbrio ou sua marcha.
Cognição e adaptação
O trabalhador precisa de treinamento para automatizar o uso do equipamento. Essa adaptação envolve um mapa mental da tarefa, percepção de limites, segurança na movimentação e reconhecimento de incômodos durante o trabalho.
Conclusão
Considerando o princípio da ergonomia, a adaptação deve partir do ambiente para o trabalhador. Exoesqueletos são recursos externos que podem ajudar a reduzir esforço muscular e mitigar riscos biomecânicos, mas não substituem a análise ergonômica da atividade.
Os resultados indicam que a eficiência depende da compatibilidade entre equipamento, tarefa, amplitude de movimento, velocidade, postura, treinamento e organização do trabalho.
Para obter efeito preventivo real, é necessário seguir um protocolo de aplicabilidade, validar cada atividade e acompanhar periodicamente os resultados no posto de trabalho.
Referências
- Boita HB et al. Implantação de exoesqueleto em indústrias frigoríficas. Anais da Engenharia Mecânica 2018;3(2):58-73. Acessar referência.
- Rempel DM, Star D, Barr A, Janowitz I. Overhead drilling: comparing three bases for aligning a drilling jig to vertical. J Safety Res 2010;41(3):247-51. https://doi.org/10.1016/j.jsr.2010.01.003.
- Rempel DM, Star D, Barr A, Blanco MM, Janowitz I. Field evaluation of a modified intervention for overhead drilling. J Occup Environ Hyg 2010;7(4):194-202. https://doi.org/10.1080/15459620903558491.
- Rashedi E, Kim S, Nussbaum MA, Agnew MJ. Ergonomic evaluation of a wearable assistive device for overhead work. Ergonomics 2014;57(12):1864-74. https://doi.org/10.1080/00140139.2014.952682.
- Garcés DSC. Exoesqueleto robótico para aumentar a capacidade física do membro superior humano. [Dissertação]. Rio de Janeiro: Universidade Federal do Rio de Janeiro, Programa de Pós-graduação em Engenharia Mecânica, COPPE; 2013.
- Indústria 5.0: o exoesqueleto muito além das fronteiras. Acessar referência.
- Hill D, Holloway CS, Morgado Ramirez DZ, Smitham P, Pappas Y. What are user perspectives of exoskeleton technology? A literature review. Int J Technol Assess Health Care 2017;33(2):160-7. https://doi.org/10.1017/s0266462317000460.
- Spada S et al. Passive upper limb exoskeletons: an experimental campaign with workers. Proceedings of the 20th Congress of the International Ergonomics Association; 2018.
- Amandels S et al. Introduction and testing of a passive exoskeleton in an industrial working environment. Proceedings of the 20th Congress of the International Ergonomics Association; 2018.
- Park D, Ortiz J, Caldwell DG. Novel mechanism of upper limb exoskeleton for weight support. Wearable Robotics: Challenges and Trends. Springer; 2019.
Anexo: protocolo de aplicabilidade
Para garantir segurança, conforto e desempenho, o uso de aparelhos preventivos como exoesqueletos deve seguir um protocolo aplicado ao campo. O protocolo considera usabilidade, eficiência na linha de produção e adaptação progressiva do trabalhador.
- Primeiro passo: realizar estudo científico de cada atividade para verificar a confiabilidade da aplicação. Uma mesma tecnologia pode ser eficiente em uma tarefa e inadequada em outra.
- Segundo passo: promover treinamento com profissional capacitado em ergonomia ou fisioterapia do trabalho.
- Treinar técnicas de colocação do exoesqueleto conforme orientações do fabricante.
- Medir o tempo de colocação e retirada para organizar a rotina da tarefa.
- Realizar treinamento de marcha em velocidade normal e rápida para situações de evacuação.
- Executar treinamento cinesiológico funcional em laboratório, sala separada e campo.
- Manter período médio de treinamento de 15 dias, com evolução gradual de uma hora por dia.
- Terceiro passo: criar processo de usabilidade para operação, segurança e comunicação.
- Definir suporte para acomodar o equipamento quando não estiver em uso.
- Treinar procedimento de segurança em evacuações de emergência.
- Orientar o trabalhador a comunicar desconfortos, alterações de comportamento ou riscos percebidos.
- Quarto passo: seguir rigorosamente o manual do fabricante, principalmente quanto à manutenção, para preservar vida útil e segurança.
- Quinto passo: realizar avaliações periódicas a cada 6 meses e comparar resultados com a linha de referência do estudo.
- Sexto passo: fazer reciclagem do treinamento pelo menos a cada 6 meses.
